Ser professor – essa missão impossível

professor

Existe em Portugal um conjunto relativamente pequeno de profissões (vou abster-me de lhes chamar “corporações”, ainda que se justificasse) com um desproporcionado espaço na agenda mediática, regra geral, pelos motivos errados – uma delas é a profissão de professor.

Todos os arranques de ano lectivo temos o sórdido desfilar de lamentações, acusações e  análises ao que acontece aos professores no activo, aos candidatos a professores, aos professores que nunca o foram (mas são tidos como desempregados da profissão…), aos que são colocados longe, aos que não são abrangidos pelas mil e uma excepções do concurso nacional, aos que se julgam prejudicados pelo uso que outros fazem dessas excepções, enfim, tudo isto amplificado pelas redes sociais e protagonizado na TV e nos jornais pelo inevitável Nogueira, o líder da incontornável FENPROF.

E os jornais fazem eco. Disto e das acusações mais parvas de pais e encarregados de educação que não percebem que a escola é a escola e os pais são os pais, que o professor também educa mas que a educação dos petizes depende prioritariamente do papel da família.

Segundo o Nogueira, os professores são o mais dasafortunado conjunto de profissionais do país, por um largo conjunto de razões, algumas com toda a propriedade e outras do mais ridículo que é possível imaginar. Acresce ao lamentar do Nogueira toda uma lista de estudos sobre a profissão docente que atestam ser esta a menos motivante, mais desgastante, mais esgotante, mais perigosa,  a mais danosa para a saúde, etc., etc. E os jornais fazem eco. Disto e das acusações mais parvas de pais e encarregados de educação que não percebem que a escola é a escola e os pais são os pais, que o professor também educa mas que a educação dos petizes depende prioritariamente do papel da família.

Sobre ser professor

Como “não professor”, confesso a minha profunda surpresa por existir tanta gente que continua a ser professor e tantos outros a quererem ser professores, tendo em conta aquilo de que ambos os grupos se queixam. Tendo presente o queixume, diria que é melhor e mais bem remunerado ser coveiro… Dirão que é uma “vocação”, um apelo da missão de ensinar: eu diria, deixem-se de tretas – essa coisa da “vocação” é uma mistificação palerma e a vontade ou apelo do “ser professor” não invalida que se pense nos prós e nos contras. E se é uma missão vocacional,  uma questão de fé e amor ao próximo (tipo “ir para padre”), aguentem-se à bronca e não peçam nada em troca.

Ser professor é também queixar-se da burocracia, dos ditames em constante mutação do ministério da educação, dos horários a que são sujeitos, da indisciplina, das reuniões, do estado material ou da falta dele, das instalações, da tecnologia, dos pais e da falta de reconhecimento público da importância da escola (que não é o mesmo que dizer importância dos professores, algo que muitas vezes os ditos confundem).

Sobre a burocracia, as alterações ao modo de actuar e as constantes mudanças nos programas muita coisa se pode dizer. A que me ocorre referir é que, conhecendo as escolas por dentro (porque não é necessário ser professor para isso, algo que também é dificilmente aceite pelos ditos), reconheço que são destinatários de demasiados “ofícios”, “circulares” e de muitas “orientações”, por vezes contraditórias, em muito pouco tempo.

Dirão que é uma “vocação”, um apelo da missão de ensinar: eu diria, deixem-se de tretas – essa coisa da “vocação” é uma mistificação palerma e a vontade ou apelo do “ser professor” não invalida que se pense nos prós e nos contras. E se é uma missão vocacional, uma questão de fé e amor ao próximo (tipo “ir para padre”), aguentem-se à bronca e não peçam nada em troca.

Sobre os curriculos das disciplinas, o problema é que consoante muda o titular e a cor do ministério, mudam as tribos cientifico-pedagógicas dominantes e, consequentemente, os referidos programas. Habitualmente, quem faz ou fez os programas, os novos e os velhos,  são também professores, tal como são também os professores quem coloca sistematicamente em causa os programas vigentes do mesmo modo que criticam a constante mudança…

A propósito da indisciplina: é um facto indesmentível que a autoridade dos docentes tem sofrido uma erosão substancial. O outro facto indesmentível é muitos docentes não estarem habilitados a lidar com casos problemáticos – o contexto social actual exige estratégias de actuação diferentes e ferramentas (formação) adequadas – não basta boa vontade e o empenho. O que acontece é que os pais são cada vez mais permissivos e negligentes, depositando na escola a tarefa de “domar” os seus filhos, mas sempre “a bem” (sob pena de processos, ameaças e agressões aos professores), porque eles nem “a mal” o conseguem fazer nas suas casas. Neste contexto, dinamizar aprendizagens é mesmo muito complicado.

Quanto aos horários, às férias (bem como aquilo que é eufemisticamente definido como “períodos não lectivos) e às reuniões, o mais brando que se pode ser é dizer que estão a gozar com o comum dos trabalhadores portugueses (especialmente com os do privado). Até há bem pouco tempo atrás era comum os horários dos miúdos (os clientes da dita escola) terem imensos buracos para que “alguns” docentes tivessem manhãs ou tardes ou até dias “livres”. Esta prática inqualificável, que prejudica os alunos e em que os professores que é suposto servirem a escola se servem dela, estará em declínio mas não foi extinta. Seja como for, não conheço nenhuma profissão que tenha tamanho desplante de definir quando trabalha ao arrepio das necessidades do serviço que presta. Seria o mesmo que os padeiros só trabalharem depois das 10 (e só haver pão fresco para o jantar) porque querem dormir como a generalidade dos outros mortais – ou melhor, fazem mais pão à quinta, mesmo que não se consuma mais e o pessoal depois coma pão seco na sexta porque eles foram de fim de semana…

E por aqui chegamos às férias, com a ressalva que qualquer docente vos advertirá de que não está de férias em dezembro, nem em parte de junho, no mês de julho ou naquelas duas semanas da Páscoa – são somente “períodos não letivos”, onde também ocorrem reuniões (de que se queixam insistentemente e que era vulgar anteciparem para períodos lectivos…),  ficando contudo a dúvida: se os docentes estão a trabalhar nesses “momentos”, como é que as escolas estão muitas vezes fechadas ou praticamente desertas? Estarão todos a trabalhar em casa?…

Acresce que, como qualquer funcionário público deste país, os professores gozam (por defeito) de 25 dias úteis de férias, aos quais vão sendo adicionados mais alguns em função  de antiguidades e quejandos, algo que no mundo privado em que vivo pura e simplesmente não existe – são 22 dias úteis para todos e mais 3 em função de critérios praticamente impossíveis de cumprir. Se a isso somarmos “tolerâncias” e outras minudências, facilmente concluímos que existem poucas classes profissionais portuguesas com mais tempo livre do que os professores.

O que nos leva então à remuneração. Esta, diga-se em abono da verdade, é baixa para o que a profissão exige e, por inerência, para todos os que exercem a sua profissão de professores seriamente. Mas é muito alta para quem se limita a “dar aulas”, a “dar matéria” e a usar todos os artigos possíveis e imaginários para se baldar. Aos bons professores deveriam ser pagos melhores salários e aos outros exigido mais.

Sobre serem colocados longe das suas casas e das suas famílias, a minha questão é só uma: porque concorrem para esses lugares? Por necessidade, dirá a maioria. Mas esse argumento seria válido para qualquer outra profissão. Se um técnico de outra profissão qualquer não encontra trabalho nessa mesma actividade na sua área de residência e concorre para um trabalho numa localidade a 200 km de casa, ele também não tem nenhum apoio para esse efeito. Qual é a diferença?

Mas a crítica fundamental que faço aos professores é protegerem por omissão os colegas medíocres, os negligentes, os baldas da profissão (que devem existir na mesma proporção em qualquer outra actividade mas aqui notam-se mais, porque a profissão é mediática e só no básico e secundário existe cerca de uma centena de milhar de professores activos). A má percepção pública da profissão decorre da forma como comportamentos lesivos da escola e dos alunos são tolerados pelos pares e por alguns “colegas” directores. Claro que alguns ministros (e ministras…) da educação usaram essa imagem distorcida dos professores para ganharem demagogicamente vantagens negociais no espaço mediático, mas quem fez e faz mais pela imagem negativa que uma parte da população portuguesa tem dos professores são os próprios professores, com o seu principal sindicato à cabeça.

Porque é que os professores acham que estar numa sala com 30 miúdos indisciplinados é mais desgastante do que ter que fazer um esforço físico constante e estar exposto a condições muito adversas numa mina ou numa siderurgia? Porque é que existe mais desgaste mental e mais stress num professor do que num vendedor cujo salário depende das suas vendas?

Uma última nota: a FENPROF, com o aplauso geral dos seus representados, quer que a aposentação dos professores ocorra, sem penalizações, após 40 anos de serviço. Só os professores? Os outros vão aposentar-se aos sessenta e muitos ou setenta enquanto que os professores se aposentariam mais cedo? Porquê? Qual é o raio da justificação? Porque é que os professores acham que estar numa sala com 30 miúdos indisciplinados é mais desgastante do que ter que fazer um esforço físico constante e estar exposto a condições muito adversas numa mina ou numa siderurgia? Porque é que existe mais desgaste mental e mais stress num professor do que num vendedor cujo salário depende das suas vendas? Como é que estão mais cansados e desmotivados do que os outros profissionais quando, objetiva e factualmente usufruem de mais dias de paragem do que a generalidade dos demais portugueses? Porque é que acham que são os únicos que “levam trabalho para casa”, que lidam com situações “humanamente delicadas”?

E, finalmente, volto a colocar a pergunta, se é assim tão mau ser professor porque não mudam (ou tentam mudar) de vida?

 

 

 

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